Artigos - Boa Reflexão
Willes da Silva
Psicoterapeuta, Conferencista Motivacional, Jornalista, Escritor - Autor do livro "Cidadania, O Direito de Ser Feliz.
LIBERTE-SE PARA A VIDA
23/07/2026

 

 

Já pensou que você pode ser tal qual uma lagarta, presa num casulo? Que para libertar-se e transformar-se numa linda borboleta e voar tivesse que vir a esforçar-se para romper as amarras que lhe prendem? Pois bem, digamos que maioria das pessoas vive assim, inertes, acomodadas naquilo que chamam de destino sem esboçar um mínimo de movimento para serem livres, ou seja, vivem presas em alguma espécie de casulo. Por outro lado, há aqueles que dispendem algum esforço para libertar-se das amarras sejam emocionais, dogmáticas ou espirituais. Porém, não o suficiente para obter resultados satisfatórios. Daí vem a pergunta: o que há de errado com tudo isso?

Antes de responder esta indagação, vou narrar uma parábola que ouvi há muito tempo e que me parece bastante ilustrativa para chegarmos a algum desfecho desta reflexão. Diz ela: “certa vez um homem observando a natureza ao seu redor deparou-se com uma lagarta tentando romper o seu casulo. Aí, ele inadvertidamente, pensando em ajudar a lagarta em sua tarefa, tomou de uma pequena vareta e rompeu o casulo. Ocorreu, porém, que ao invés da lagarta transformar-se em borboleta, o que seria natural, ela ficou ali inerte e morreu. O homem sem entender o ocorrido, deixou a criatura ali entregue a sua própria sorte sem compreender o que acontecera”.

Pois bem, cada um de nós, após apreciar a parábola narrada, pode chegar a diversas conclusões, de acordo com o prisma que optar por seguir. Eu, pelo meu lado, vou me ater a algumas considerações que penso serem importantes. Primeiro que todo a rota que a lagarta segue até transformar-se em borboleta é um processo natural à sua espécie, ou seja, cada dificuldade ou obstáculo a ser vencido produzem o seu fortalecimento orgânico e os elementos para ativar em si as condições de voo e, até mesmo, as suas cores de acordo com a sua espécie. Em síntese, todo o seu aparente sofrimento colabora com a sua transformação no ser que vem a ser. Se transferirmos a análise para a trajetória do ser humano, veremos também que muitas das dificuldades que este vem a enfrentar na vida, de modo simbólico se assemelha ao da lagarta, já que para vir a estabelecer-se existencialmente com algum sucesso ele também tem que superar vicissitudes que no final do processo irão libertá-lo de suas limitações. Como disse o político e também pensador uruguaio José Mujica “o sucesso está em quantas vezes você levanta ao cair”, ou seja, as quedas, os infortúnios e outras dificuldades que nos surgem a cada passo da nossa jornada evolutiva tendem a ser pedagógicas, se estamos atentos e perseveramos nela.

Não podemos também perder de vista que uma das dificuldades, ou armadilhas, existenciais do ser humano reside no acomodamento, na estagnação, na espera passiva de que algo de mágico aconteça e resolva suas angustias. Ledo engano. Toda e qualquer transformação autêntica necessariamente deve ocorrer de dentro para fora; exige coragem de encarar as próprias limitações e a força para romper as paredes do próprio casulo. Não existem atalhos, fórmulas fáceis ou salvações externas nessa jornada: ou o indivíduo assume o protagonismo do seu desenvolvimento e aceita a pedagogia de suas próprias dores, ou permanecerá estagnado no espectro daquilo que poderia ter sido.

Algo que vale ainda destacar é que, às vezes, podemos precisar de alguma ajuda externa para aclarar o nosso processo transformacional. Porém, o que não pode e nem deve ocorrer é abrirmos mão da nossa autonomia para decidir qual o melhor caminho ou ferramenta a ser utilizada com vistas à conclusão do processo decisório. Isto porque a superproteção excessiva ou interferência alheia pode nos enfraquecer ao invés de ajudar.

A verdadeira autonomia não é um presente concedido pelo destino, mas uma conquista moldada pela perseverança diante dos infortúnios da vida. Ao compreender que as dificuldades não surgem para nos destruir, mas para nos fortalecer e ensinar a voar, ressignificamos cada queda como um passo em nosso processo evolutivo. Afinal, para que a borboleta emerja, o casulo precisa ser rompido por dentro — e somente quando nos assenhoramos da nossa própria história é que nos libertamos para viver em plenitude. Criar as nossas próprias asas é nossa intransferível tarefa. 

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