Se existe uma pergunta que insiste em ecoar, é a indagação do cartunista argentino Quino[1], formulada através de sua inesquecível personagem Mafalda: “Para onde vão os nossos silêncios quando deixamos de dizer o que sentimos?”

Tudo o que interiorizamos — seja luminoso ou sombrio — deixa marcas. O corpo e a mente são territórios integrados: o que a boca cala, o coração acumula e a carne, eventualmente, traduz. Quando represamos, censuramos ou sublimamos emoções e sensações, criamos uma barragem invisível. O curto, médio ou longo prazo, esses sentimentos não ditos cobram seu preço, manifestando-se como desconforto psíquico ou sintomas físicos. É possível que muito dos mal estares que o corpo acaba apresentando sob diversas formas seja resultado do amargor interiorizado pelo silêncio forçado.

Conheci entre casos levados à psicoterapia situações depressivas oriundas de situações familiares que até aquele momento eram caladas para manter a falsa harmonia familiar. A solução para a questão só se apresentou quando, num breve processo de reparentalização, houve a quebra do silêncio imposto, ou seja, quando se restabeleceu a via de expressão autêntica e sem censura. Este relato comprova que muito do que introjetamos é proveniente da criação familiar, mas, isto também se estende por outras esferas sociais como o ambiente escolar, religioso, laboral, etc. Em síntese poderíamos afirmar que reproduzimos em outros tantos ambientes o que aprendemos, ou desaprendemos, na família; outros ambientes às vezes potencializam isso.

Alexander Lowen[2], criador da análise bioenergética, em seu livro O Corpo em Depressão, diz que “A supressão de sentimentos cria uma pré disposição para a depressão, uma vez que ela impede o indivíduo de confiar em seus sentimentos como um guia para seu comportamento”. Talvez só essa citação bastasse para trazer uma breve compreensão sobre o tema tratado, mas, é preciso ter uma visão mais ampla sobre tudo isso, principalmente no que tange a confiar ou não em seus sentimentos e impressões. Porquanto ao calar de modo de modo sistemático sobre aquilo que devemos nos expressar, demostramos a nós mesmos uma espécie de incompetência em relação ao que sentimos, como se não nos achássemos capaz de externar aquilo que sentimos em relação aos outros ou, até mesmo, sobre o mundo que nos cerca.

Infelizmente, muitos de nós aprendem a viver sob o peso de crenças limitantes e mandatos invisíveis que bloqueiam a expressão autêntica. Por medo do conflito, do julgamento ou da rejeição, sufocam-se ideias, vontades e percepções. Há quem acredite que trocar a própria voz pela resignação seja um preço justo a pagar pelo acolhimento do outro, pela harmonização do ambiente em suas diversas esferas. Porém, trata-se de uma ilusão. A submissão jamais foi ponte para a aceitação genuína. O silêncio forçado não protege as relações; apenas ergue as paredes de uma prisão invisível onde o único custo real é o da autoanulação.

 

A acrescentar ainda no quesito da somatização já tratado acima, é importante fixar que o corpo fala ou se comunica através de dores, tensões, ou esgotamento quando a palavra lhe é negada.

Algo ainda a ser destacado no sentido de enriquecer esta reflexão, é que é possível também distinguirmos duas formas de silêncio. A primeira a que venho me referindo é a do silêncio imposto, repressor e limitante, causador de desarmonia, distúrbios emocionais e adoecimento físico. A segunda é a do silêncio edificante, construtivo, aquele que também podemos chama-lo de silêncio da sabedoria, um estado de introspecção que observa, que acolhe e poderá, que constrói e expande respostas adequadas a cada situação ou obstáculos. Em suma, é este silêncio que gera equilíbrio, que permite dizer não quando necessário ou sim quando é aprazível e reporta a um ato de autocuidado, autonomia e libertação.   

 


[1]Joaquín Salvador Lavado Tejón – Quino - 1932/2020 – pensador, historiador, gráfico e cartunista argentino, conhecido pelas suas histórias em quadrinhos; criador do personagem Mafalda.

 

[2] Alexander Lowen  - 1910/2008 – Americano, psicanalista, criador da Análise Bioenergética, diversas obras, entre estas “O Corpo em Depressão”, editada em 1983, editora Summus, citação pg.64.